Saúde Digestiva

Drª Ana Caldeira
Artigos de Opinião

A Ecografia Digestiva

A ultrassonografia clínica, ou ecografia clínica, tem um valor inestimável para o médico que a executa. Representa uma forma ímpar de abordagem do interior do corpo humano, nomeadamente dos órgãos da cavidade abdominal, resultando quase sempre numa melhor acuidade diagnóstica. Na necessidade de decisão urgente perante situações menos frequentes e mais complexas, a ultrassonografia realizada de imediato à cabeceira do doente pode ter um papel determinante. A empatia e confiança que pode resultar da vivência partilhada nos momentos de cada avaliação pode acrescentar à interação médico-doente uma indispensável solidez na relação terapêutica.

Contam-se mais de 800 patologias diferentes no abdómen, na maioria digestivas, os sintomas são pouco específicos, a morfologia visceral é muito importante e a palpação abdominal manual é insuficiente, além de que a endoscopia apenas observa a mucosa.

A ecografia ofereceu ao gastrenterologista, um avanço impressionante que motivou alteração dos protocolos de abordagem de muitas patologias, afirmando-se atualmente como um método de rotina na prática médica diária. A aplicação dos ultrassons no diagnóstico médico representou um grande avanço no estudo da patologia abdominal e consequentemente, uma das especialidades que mais beneficiou deste método diagnóstico foi a gastrenterologia. As enormes possibilidades de informação que a ecografia fornece, associado à ausência de complicações, contribuíram para que se tenha convertido numa técnica de primeira linha com múltiplas aplicações na patologia digestiva. É por isso uma técnica imprescindível para o gastrenterologista.

A precisão do diagnóstico clínico depende das indicações, sensibilidade e especificidade e tem como objetivo uma rentabilidade diagnóstica adequada. Ao utilizar a ecografia devemos conhecer as suas vantagens e limitações. As vantagens prendem-se com a facilidade de uso, grande acessibilidade, baixo custo, o facto de ser um método não invasivo, ser facilmente repetível, permitir a realização em tempo real e com resolução espacial. É uma técnica especialmente importante em situações de urgência e emergência em que há suspeita de patologia do fígado, vias biliares, pâncreas ou do tubo digestivo. A obtenção de resultados imediatos permite tomar decisões e orientar melhor a abordagem do doente.

Uma outra potencialidade deste método prende-se com a possibilidade de realizar o estudo funcional do tubo digestivo, ou até mesmo a realização de hidrossonografia (ecografia com o lúmen digestivo preenchido com água) para melhor avaliação da parede digestiva, sendo muito útil na doença inflamatória intestinal. Existem módulos de imagem acoplada à imagem ecográfica em franco desenvolvimento e que se têm vulgarizado na prática clínica. Além do color Doppler que permite o estudo da vascularização, temos também a elastografia em tempo real muito aplicada na avaliação da fibrose do fígado, bem como os contrastes endovenosos utilizados especialmente na abordagem e diagnóstico diferencial das lesões focais do fígado.

A ecografia digestiva tem também o importante papel de reduzir os riscos em procedimentos invasivos, funcionando como um verdadeiro GPS. Ela permite a realização de biopsias percutâneas, bem como a drenagem de coleções guiadas por ecografia.

Drª Ana Caldeira
Presidente do Grupo Português de Ultrassons em Gastrenterologia (GRUPUGE), da SPG