Saúde Digestiva

Prevenção

A importância do Microbioma na Saúde Digestiva

07 Jun 2020

O tubo digestivo humano alberga no seu interior uma comunidade imensa de microrganismos, composta por bactérias, vírus e fungos entre outros, que em conjunto com os seus genes e condições ambientais envolventes formam o chamado Microbioma Intestinal. Estes micróbios colonizam de forma distinta os vários segmentos do trato gastrointestinal sendo a região do cólon aquela que se encontra mais densamente povoada. O número de células microbianas é idêntico ao número de células humanas, sendo o Microbioma Intestinal considerado mais um órgão, perfeitamente integrado na fisiologia do corpo humano. A nível genético é interessante verificar que sendo o Microbioma Intestinal constituído por cerca de 3 milhões de genes e o genoma humano por cerca de 23.000 genes, podemos inferir que os humanos são desta forma 99% microbianos. Uma pessoa com cerca de 70 Kg convive com várias dezenas de triliões de microrganismos no seu tubo digestivo, pesando estes cerca de 1 a 2 Kg, aproximadamente o peso dum cérebro. As bactérias são os seres predominantes e mais estudados deste ecossistema no qual se diferenciam cerca de 1000 espécies distintas.

Estudos recentes revelam que a formação do Microbioma Intestinal se inicia ainda no útero materno.

A quando do nascimento muitos fatores vão influenciar o desenvolvimento do Microbioma, entre os quais se apontam o tipo de parto, vaginal versus cesariana e a amamentação, materna ou artificial. Por volta dos 2 a 3 anos a criança apresenta já um Microbioma idêntico ao de um adulto, o qual se manterá sensivelmente estável ao longo da sua vida. Apesar de um terço do Microbioma ser comum à maioria das pessoas a sua composição é única, tal como uma impressão digital.

O que se considera um Microbioma intestinal normal?

Não existe consenso para definir um Microbioma intestinal “normal”, apesar de ser esta uma área de investigação ativa. Algumas características têm sido propostas para considerar o Microbioma como “saudável”, nomeadamente a riqueza e diversidade de espécies, a sua resistência e estabilidade ao longo do tempo e a riqueza de genes microbianos. Influenciam a composição do Microbioma fatores que dependem do individuo como: (1) hábitos alimentares e forma de confecionar os alimentos; (2) medicação (antibióticos, supressores da acidez gástrica, antidiabéticos orais…); (3) ambiente (rural versus urbano) e estilo de vida (exercício físico versus sedentarismo); (4) aumento de peso; e fatores que não dependem do individuo como: (1) genética; (2) idade gestacional (termo versus pré-termo); (3) envelhecimento.

Existe um relacionamento complexo bidirecional entre o Microbioma Intestinal e o hospedeiro, que é vital para a saúde. Entre as suas funções primordiais destacam-se: (1) papel na nutrição – digestão de alguns alimentos não digeríveis pelo ser humano (ex. fibras), absorção de alguns minerais (ex. magnésio, cálcio e ferro), síntese de algumas vitaminas (ex. vitamina K e ácido fólico) e aminoácidos, regulação do metabolismo; (2) papel de defesa – proteção contra microrganismos patogénicos, degradação de compostos tóxicos, modulação da resposta imune; (3) papel no comportamento – influenciar o humor e a função cerebral.

O desequilíbrio na composição do Microbioma Intestinal pode condicionar o aparecimento e/ou agravamento de várias doenças, não só a nível do tubo digestivo, mas também noutros órgãos ou sistemas. Diferentes estudos de investigação têm relacionado o papel do Microbioma com patologias diversas como a síndrome do intestino irritável e outros distúrbios funcionais gastrointestinais, a doença inflamatória do intestino (Doença de Crohn e Colite ulcerosa), a obesidade, o fígado gordo, a diabetes e algumas alterações do comportamento como o autismo.

A força da alimentação

A modificação da dieta constitui o fator mais importante para manter um bom funcionamento do Microbioma Intestinal. Desta forma aconselha-se a ingestão duma dieta que promova o crescimento de bactérias saudáveis, a qual deve incluir: (1) grande variedade de alimentos, em particular legumes, leguminosas e fruta; (2) alimentos fermentados como iogurtes e Keffir; (3) diminuição da ingestão de adoçantes artificiais tais como o aspartato; (4) alimentos prebióticos como bananas, aspargos, maçãs, alcachofra, aveia; (5) grãos integrais como arroz integral, trigo sarraceno, milho; (6) alimentos ricos em polifenóis como o chá verde, chocolate negro, azeite. Para além da dieta, a mudança de estilo de vida, com a prática de exercício físico adequado, ritmos de sono regulares e redução da exposição ao stress, pode também melhorar o Microbioma Intestinal e dessa forma proporcionar um maior bem-estar geral.

Não esquecer que o que cada pessoa come diariamente não alimenta apenas o seu corpo, mas nutre também vários triliões de microrganismos que habitam o seu tubo digestivo e sem os quais seria difícil sobreviver. Apesar da crescente evidência científica continua elevada a especulação sobre o papel dos microrganismos intestinais na saúde e na doença. Muito ainda se desconhece acerca do Microbioma Intestinal que continua um campo de investigação científica desafiante e deveras promissor.

Parafraseando Hipócrates (pai da medicina do século III a. C.) “Todas as doenças começam no intestino e da mesma maneira a Cura também começa lá!” poder-se-á considerar que a chave do enigma se encontra no Microbioma Intestinal. A resposta talvez surja num futuro a médio prazo! Entretanto cuidemos do nosso Microbioma!

Dr. Eduardo Cardoso Pires, Presidente do Núcleo de Neurogastrenterologia e Motilidade Digestiva da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.