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Conhecer o Pâncreas

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Conhecer o Pâncreas

O pâncreas é um pequeno órgão anexo ao tubo digestivo, escondido atrás do estômago, com cerca de um palmo de comprimento e com menos de 100 gramas, mas com um papel vital na fisiologia da digestão e no equilíbrio hormonal. Apenas em meados do século XVII, o anatomista alemão Johann Georg Wirsung, descobriu que o órgão está conectado ao intestino através de um pequeno canal, que passou a ser designado ducto de Wirsung. Só no século XIX foram caracterizadas as funções deste órgão enquanto glândula digestiva, responsável pela produção e libertação para o intestino de suco pancreático, fundamental para a digestão, e também enquanto glândula endócrina, responsável pela produção e libertação para o sangue de várias hormonas vitais para o metabolismo dos açúcares, proteínas e gorduras.

O pâncreas não só possibilita que decorra a normal digestão e absorção dos alimentos, mas é também fundamental para o metabolismo e homeostasia, garantindo a produção de várias hormonas com funções vitais, a mais conhecida a insulina, que tem um papel vital no metabolismo dos açúcares. Assim percebe-se que o espectro de doenças associadas ao pâncreas é alargado, integrando desde patologias associadas a má digestão e má absorção dos alimentos (condicionando diarreia crónica e emagrecimento), mas também vários distúrbios hormonais, como a diabetes. As doenças do pâncreas integram ainda várias patologias inflamatórias, como a pancreatite, e patologias oncológicas.

 

O Pâncreas em Portugal e no Mundo

As doenças do pâncreas englobam doenças hereditárias, como a fibrose quística; doenças autoimunes, como a diabetes tipo 1; doenças associadas a inflamação aguda, como a pancreatite aguda; doenças associadas a inflamação crónica, como a pancreatite crónica; vários tipos de neoplasias, com destaque para o cancro do pâncreas.

Globalmente, as doenças do pâncreas são responsáveis por elevada morbilidade e mortalidade, e elevados custos económicos (diretos e indiretos). Destacam-se as pancreatites aguda e crónica, com aumento significativo de incidência na Europa Ocidental nas últimas décadas. O cancro do pâncreas é o cancro digestivo com pior prognóstico. A sua incidência tem vindo a aumentar, particularmente nos países desenvolvidos, com cerca de 450 mil novos casos por ano a nível mundial.

Em Portugal, é o terceiro cancro mais frequente do sistema digestivo, após os do cólon e do estômago, estimando-se que surjam anualmente no nosso país cerca de 1400 novos casos.  O número absoluto de mortes por cancro do pâncreas em Portugal duplicou nos últimos 25 anos. O envelhecimento da população e o aumento de alguns fatores de risco transversais a várias doenças oncológicas, como o tabagismo e a obesidade, estão a contribuir para este aumento.

A história familiar de cancro do pâncreas constitui um importante fator de risco para o desenvolvimento da doença e está presente em cerca de 10% destes tumores.

 

A Saúde Digestiva do Pâncreas

O tabaco e o álcool são os principais inimigos do pâncreas, induzindo inflamação, com risco de progressão para pancreatite crónica, e aumentando o risco de cancro de pâncreas. O tabagismo crónico é o principal fator de risco ambiental para cancro do pâncreas, aumentando o risco cerca de duas vezes. A diabetes mellitus, alguns fatores dietéticos, tais como a ingestão de gorduras, sobretudo de origem animal, a obesidade e o sedentarismo também aumentam o risco.

 

Prevenir, Diagnosticar e Tratar

O cancro do pâncreas é habitualmente silencioso até uma fase avançada da doença e os sintomas variam com a localização do tumor no próprio órgão: podem ser relativamente inespecíficos, como dor abdominal, perda de apetite, emagrecimento e cansaço.

No cancro do pâncreas é fundamental uma abordagem multidisciplinar, que integre a Oncologia, a Imagiologia, a Gastrenterologia, a Anatomia Patológica, a Cirurgia Geral e a Radio-Oncologia. A tomografia computadorizada (TAC), a ressonância magnética (RM) e a ecoendoscopia são exames com excelente acuidade na avaliação do pâncreas.

É fundamental reduzir os fatores de risco ambientais, identificar indivíduos com risco acrescido e promover estratégias de rastreio/diagnóstico precoce, procurando oferecer o melhor tratamento disponível individualizado para cada doente. Na patologia pancreática, em que abordamos um órgão que ainda hoje constitui um desafio, a investigação assume um papel central. Principalmente no tratamento do cancro de pâncreas, deveremos equacionar sempre a inclusão do doente num ensaio clínico. Apesar do prognóstico globalmente reservado, deverão ser destacados importantes progressos da investigação. Para permitir um diagnóstico verdadeiramente precoce do cancro do pâncreas, é importante a validação de biomarcadores, idealmente pesquisados por análise sanguínea, com sensibilidade e especificidade elevadas, que também poderão vir a ser úteis no rastreio em grupos de risco e na monitorização da resposta ao tratamento. Apesar das dificuldades apontadas, a sobrevivência tem melhorado, de forma lenta mas consistente, e a proporção de doentes candidatos a uma cirurgia potencialmente curativa tem aumentado. Novos dados de investigação têm ainda permitido identificar marcadores moleculares com valor preditivo na resposta ao tratamento, por exemplo na identificação dos doentes que mais beneficiam de cirurgia, e poderão dirigir a seleção de fármacos anti-tumorais de acordo com a sensibilidade das células cancerígenas.

 

Uma curiosidade sobre o Pâncreas

Devido à sua consistência elástica, durante vários séculos pensou-se que o pâncreas servia apenas de “almofada”, com a função de proteger os órgãos abdominais contra o impacto na coluna vertebral. A inacessibilidade anatómica do pâncreas (numa localização profunda na cavidade abdominal, atrás do estômago) ainda hoje dificulta a avaliação deste órgão por exames de imagem e a sua abordagem cirúrgica.