Saúde Digestiva

Professor Doutor Rodrigo Liberal
Artigos de Opinião

Dia Mundial das Hepatites

O fígado é o maior órgão do corpo humano. Mas o facto que maior prende a atenção não é a grandeza do seu tamanho mas a grandeza da sua função e a sua complexidade estrutural. O fígado desempenha um papel central no metabolismo dos três nutrientes essenciais: as proteínas, os lípidos e os hidratos de carbono, bem como no metabolismo das vitaminas e oligoelementos. O fígado tem a função de controlar e transformar tudo o que ingerimos, nomeadamente os nutrientes, produzir determinadas substâncias essenciais e de armazenamento de energia. Mas também a função de filtração e transformação dos medicamentos que ingerimos.

Apesar do tamanho e das suas funções, o fígado é um orgão silencioso. A maioria das doenças hepáticas é silenciosa. Os indivíduos com doenças hepáticas crónicas podem ficar sem sintomas durante anos ou décadas. Não há nervos no interior do órgão, portanto, o fígado não dói.

A hepatite é uma inflamação do fígado. Esta inflamação pode desaparecer espontaneamente ou progredir para fibrose (cicatrizes), cirrose ou cancro do fígado. Os vírus da hepatite (A, B, C, D e E) são a causa mais comum de hepatite no mundo. Pode, também, ser causada pela gordura, álcool, medicamentos, e outras doenças mais raras, como as doenças autoimunes do fígado.

As hepatites víricas são um problema de saúde global, uma vez que existem cerca de 240 milhões de pessoas com infeções crónicas por hepatite B e cerca de 130-150 milhões de pessoas infetadas pelo vírus da hepatite C.

Para a hepatite C ainda não há vacina e o vírus da hepatite C é transmitido com muita facilidade. Enquanto que na hepatite B, apenas 5% dos infectados se tornam portadores crónicos, na hepatite C são 80%.

A hepatite C é chamada de epidemia silenciosa porque a maioria das pessoas com hepatite C não sabe que está infectada. Quase 75% dos indivíduos com a doença crónica nem sabem que estão infectados. Isto significa que eles não estão apenas a infectar outras pessoas, mas também não estão a receber o tratamento necessário para interromper a doença e melhorar a sua saúde atual. Apesar de amplamente subdiagnosticada, a hepatite C é fácil de diagnosticar. O teste é uma simples análise ao sangue, sendo o seu resultado rápido e fiável.

Atualmente não há vacina para o VHC, mas estão disponíveis novas opções de tratamento para curar a doença e têm existido grandes melhorias nas últimas décadas. Nos últimos anos, novos medicamentos foram desenvolvidos num ritmo rápido. Algumas pessoas infectadas com o VHC são capazes de eliminar ou de se livrar do vírus por meio de medicamentos chamados antivirais que podem ajudar a eliminar o vírus do corpo e prevenir maiores danos no fígado.

Os médicos começaram a tratar o HCV na década de 1990 com interferon, que combate a doença ao estimular o sistema imunológico. Mas o tratamento demorava quase um ano, tinha muitos efeitoslaterais e oferecia apenas uma taxa de cura de cerca de 50%.

Um grande avanço no tratamento do HCV ocorreu em 2011, quando foram introduzidos novos medicamentos de combate ao vírus. Desenvolvimentos constantes no tratamento aumentaram a taxa de cura para 99%. Não apenas as taxas de cura melhoraram, mas a qualidade de vida dos pacientes – durante e após o tratamento – é muito melhor. Além disso, o tempo de tratamento diminuiu de 48 semanas para entre 8 e 12 semanas, e os pacientes estão a ter menos efeitos colaterais.

 

Professor Doutor Rodrigo Liberal
Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto

A convite da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia