O cancro do pâncreas é ainda relativamente pouco frequente, ocupando o décimo lugar em termos de incidência oncológica global, mas está associado a uma mortalidade elevada.
Nas últimas décadas, tem-se verificado uma tendência progressiva de aumento do número de casos e de mortes por cancro do pâncreas. Recentemente, registou-se um crescimento expressivo da incidência desta doença em pessoas com idades compreendidas entre os 30 e os 40 anos.
O pâncreas é um pequeno órgão anexo ao tubo digestivo, localizado atrás do estômago. Tem cerca de um palmo de comprimento e pesa menos de 100 gramas. A sua posição anatómica pode dificultar o diagnóstico de tumores e até a sua avaliação através de exames de imagem mais simples, como a ecografia.
Enquanto glândula, o pâncreas desempenha várias funções essenciais: É responsável pela produção e libertação de suco pancreático para o intestino, fundamental para a digestão, e pela produção de várias hormonas centrais no metabolismo dos açúcares, das proteínas e das gorduras.
O pâncreas tem, assim, uma função exócrina, contribuindo para a digestão e absorção dos alimentos, e uma função endócrina, assegurando a produção de hormonas como a insulina, indispensáveis para o controlo do metabolismo dos açúcares.
Cerca de 90% dos cancros do pâncreas têm origem nas células exócrinas que revestem os canais pancreáticos. Este tipo de cancro denomina-se adenocarcinoma ductal e é o principal tipo de cancro do pâncreas, representando entre 75% e 90% dos casos. Outro tipo de tumor, menos frequente, é o carcinoma neuroendócrino, que tem origem nas células endócrinas do pâncreas. Outros tipos de cancro do pâncreas, como o sarcoma ou o linfoma, são muito raros.
Aproximadamente 70% dos cancros do pâncreas localizam-se na cabeça do pâncreas, junto ao duodeno, enquanto cerca de 30% surgem no corpo e na cauda do órgão.
O cancro do pâncreas desenvolve-se e cresce de forma silenciosa, evoluindo quase sempre sem sintomas, o que faz com que seja frequentemente diagnosticado em fases avançadas. Quando surgem sintomas, a doença já envolve estruturas locais importantes e encontra-se, habitualmente, num estádio avançado.
Como se trata geralmente de um tumor agressivo e as terapêuticas atualmente disponíveis são ainda pouco eficazes, a mortalidade associada ao cancro do pâncreas é muito elevada, sendo quase equivalente à sua incidência.
Apesar deste ser, à primeira vista, um cenário preocupante, existem também boas notícias que nos devem dar esperança. Têm-se registado avanços significativos no conhecimento molecular do cancro do pâncreas, o que poderá abrir caminho ao desenvolvimento de novos métodos de rastreio e ao diagnóstico precoce. Paralelamente, a sobrevivência a longo prazo tem vindo a aumentar, acompanhada pelo desenvolvimento de novas terapêuticas, tanto locais como sistémicas. No futuro, abordagens inovadoras como a imunoterapia e as terapias celulares poderão vir a desempenhar um papel determinante na melhoria significativa do prognóstico desta doença.
Artigo escrito por Ricardo Rio Tinto, médico gastrenterologista na Fundação Champalimaud
dezembro, 2025
