Olá, somos os vírus das Hepatites Virais, todos semelhantes mas todos bem diferentes!!!!!!
Somos os vírus das hepatites virais!!. Hepatite significa que o fígado está inflamado. Em tudo semelhante a um apêndice inflamado (apendicite), uma articulação (artrite) ou uma inflamação no nariz (rinite). Inflamação significa que o elemento em questão poderá estar inchado, avermelhado e com queixas dolorosas.
As ditas hepatites, podem ser provocadas por múltiplos agentes, álcool, tóxicos, medicamentos e vírus.
Os vírus das hepatites têm uma apetência muito particular pelo fígado, localizado à direita por baixo das costelas.
Como sabemos que estamos infetados? Na grande maioria dos casos apenas por análises ao sangue, algumas delas gerais e comuns a qualquer doença do fígado, outras muito específicas para cada tipo de vírus. São os chamados marcadores, ou seja, marcam e assinalam com muita precisão um determinado tipo de vírus.
As hepatites virais mais importantes têm letras atribuídas, correspondendo às cinco primeiras letras do alfabeto português: A, B, C, D, E. Cabem na palma da mão.
Mas, nem todas são iguais, umas “são mais iguais do que as outras”, ou seja, têm maior importância em Portugal.
Atrevo-me a atribuir uma classificação por ordem de importância: C, B, A, E, e D.
Umas são mais importantes do que as outras, mas porquê? A D (também chamada de Delta) e a hepatite E, são muito raras em Portugal.
A hepatite B e a C são as mais importantes, por um conjunto de fatores: número de infectados, capacidade de se tornarem crónicas (podem permanecer por mais de seis meses, até toda a vida), capacidade de destruir o fígado provocando uma situação potencialmente grave, a cirrose hepática. A cirrose hepática tem um risco elevadíssimo para evoluir para cancro do fígado. Alguns destes casos crónicos podem necessitar de um transplante hepático, na luta para manter a Vida. Algumas hepatites virais têm vacina, outras não, umas têm cura, outras não.
Como as podemos evitar? Vacina (A e B) que também protege para a D (hepatite Delta). Existe uma vacina dita combinada, que é administrada em três doses por via Intramuscular. A vacina da hepatite A deve ser efetuada em quem vai fazer uma viagem a África ou Ásia.
Quais os fatores de risco? Para a hepatite A, os contactos com mãos, alimentos contaminados não sendo de excluir relações sexuais de risco. Aqui mais uma vez a questão de apostar nos cuidados de higiene, de lavar as mãos, etc.
Têm ocorrido um pouco por toda a Europa, e também em Portugal, vários focos epidémicos em homens que têm sexo com homens. Devemos considerar a vacinação nestes grupos de risco. Quanto à transmissão da hepatite B, ela pode ocorrer se a Mãe na altura do parto estiver infetada (se for portadora do vírus) ou através de relações sexuais desprotegidas com alguém infetado. Para a hepatite C as transfusões efetuadas antes de 1992, mas o risco reside principalmente o consumo de drogas, nem que tenha sido uma vez.
Como as podemos diagnosticar? devemos incluir nas análises de rotina, já que a maioria das hepatites evoluem de forma silenciosa, sem sintomas, não só as análises globais do fígado (as ditas trasnsaminases, principalmente a ALT e alguns marcadores da hepatite B (AgHBs, anti-HBc e anti-HbB) e da hepatite C (anti-VHC). Entendemos que; à semelhança do teste para o VIH, os marcadores das hepatites virais devem ser efetuados pelo menos uma vez na Vida.
Como podemos evitar o seu agravamento? Diagnosticar tão cedo quanto possível a hepatite C (anti-VHC) e a hepatite B, para se realizar o tratamento com antivíricos na hepatite B e C e no caso das hepatites crónicas (B e C) não consumir álcool em quem já tem cirrose. Evitar também o excesso de peso que traz consigo o fígado gordo e a hepatite associada à gordura (esteatohepatite não alcoólica).
Parece algo confuso, esta sopa de letras? Mas é mesmo assim. A evolução da biologia, da medicina moderna, da tecnologia, da virologia, da vacinologia permitiu alguns desenvolvimentos dos mais relevantes para o ser Humano, como seja a descoberta da vacina da hepatite B e a cura da hepatite C (neste último caso com antivíricos dados de forma oral, durante 2 a 3 meses, praticamente sem efeitos secundários). Assim fosse possível com outros vírus como seja o VIH e o Coronavírus.
É a chamada Medicina de precisão, infelizmente no campo do tratamento ainda apenas na hepatite C.
Os números falam por si: 40.000 infetados em Portugal com a hepatite C, talvez 60-70.000 com hepatite B crónica, mas em todo o mundo por cada ano que passa quase 1.5 milhões de mortos.
Artigo escrito por Rui Tato Marinho, médico gastrenterologista, hepatologista e adictologista, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) 2019-2023, Prof. Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Pró-Reitor da Universidade de Lisboa, Diretor do Programa Nacional das Hepatites Virais na DGS, Presidente da CEIC (Comissão de Ética para a Investigação Clínica)
novembro, 2025
