A obesidade é uma doença crónica que tem um impacto muito importante na saúde digestiva, para além do conhecido risco cardiovascular e metabólico. Está associada a maior risco de doenças do fígado, pâncreas e tubo digestivo, além de poder dificultar tratamentos médicos e cirúrgicos.
No esófago e no estômago, a obesidade favorece a doença do refluxo gastroesofágico (azia), devido ao aumento da pressão intra-abdominal. Quando é persistente, o refluxo pode causar inflamação, estreitamento do lúmen do esófago e alterações das suas células (esófago de Barrett), condição associada a maior risco de cancro.
No fígado, destaca-se a doença hepática associada a disfunção metabólica, também conhecida como “fígado gordo não alcoólico”, atualmente a principal causa de doença hepática crónica. Embora não esteja associado a sintomas, pode progredir para fibrose avançada e cirrose, sobretudo quando existem outros fatores como diabetes mellitus ou consumo de álcool. A perda de peso é a medida mais eficaz para travar e até reverter esta doença.
A obesidade aumenta também o risco de pedras na vesícula biliar e das suas complicações, como a colecistite e a pancreatite aguda, podendo agravar a evolução destas doenças.
No que diz respeito ao intestino grosso, o peso excessivo pode dificultar procedimentos como a colonoscopia e aumentar o risco de complicações.
Além disso, a obesidade está associada a um maior risco de vários cancros digestivos, incluindo do esófago, fígado, pâncreas e cólon e reto. Esta relação deve-se, em parte, a um estado de inflamação crónica no organismo.
As consequências são uma maior utilização de recursos de saúde, um aumento de complicações perioperatórias, internamentos prolongados e impacto negativo na qualidade de vida.
A prevenção primária é essencial, através da promoção de um estilo de vida saudável, com uma alimentação equilibrada e atividade física regular.
É igualmente importante reconhecer que a obesidade é uma doença que deve ser tratada. A abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo vários profissionais de saúde, estratégias individualizadas baseadas na modificação do estilo de vida, apoio psicológico, terapêutica farmacológica e, em casos selecionados, tratamento endoscópico ou cirúrgico da obesidade.
Reduzir o peso não é apenas uma questão estética – é uma forma de prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida.
Neste Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade, a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia sublinha que a obesidade pode e deve ser tratada e que uma intervenção precoce permite evitar muitas das suas complicações digestivas.
Artigo escrito por Joana Nunes, Secretária-Geral da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)
