Saúde Digestiva

Artigos de Opinião

Efeito dos Antibióticos sobre a microbiota intestinal

A descoberta do primeiro antibiótico (Penicilina) data de 1928 e, desde aí, que este e muitos outros antibióticos salvaram seguramente milhões de vida. Porém, é também reconhecido que a banalização da utilização destes fármacos pode ter efeitos nefastos sobre o nosso organismo. Assim, muitas vezes existem infeções (constipações, diarreias) causadas por vírus, que são autolimitadas, que passariam espontaneamente em 2-3 dias e que são incorretamente tratadas com antibióticos como se se tratasse de uma infeção bacteriana. Isto faz com que a utilização do antibiótico seja muito superior à necessária o que acarreta efeitos secundários sobre a nossa microbiota, sobretudo intestinal, efeitos estes que podem durar anos e são irreversíveis pois a microbiota nunca mais volta ao seu estado inicial. A MICROBIOTA é constituída por diversos microrganismos – vírus, bactérias, fungos, que colonizam o nosso corpo desde a nascença. Esta microbiota tem funções muito importantes para o bom funcionamento do nosso corpo em geral e do nosso intestino em particular. Uma microbiota saudável produz vitaminas (vitamina K e ácido fólico), mantem a integridade da nossa parede intestinal, defende-nos contra microrganismos invasores que causam doença (Salmolla p.e.) e fermentam os alimentos que ingerimos com produção de ácidos gordos de cadeia curta que são fundamentais para as nossas células intestinais. Assim, quando tomamos um antibiótico, vamos matar não só as bactérias más, que estão a causar doença, mas também todas as outras que habitam o nosso intestino e que têm todas estas funções benéficas que ficam, pois, comprometidas. Este estado de desequilíbrio causado pela utilização frequente e repetida de antibióticos sobre a nossa microbiota designa-se por DISBIOSE que é hoje considerada como responsável por inúmeras patologias como sejam a síndrome do intestino irritável, o sobre crescimento bacteriano (SIBO), mas também outras situações tão diversas como a obesidade, a depressão, as doenças autoimunes, a diabetes e mesmo alguns cancros como seja o cancro do cólon e reto. Claro que após a suspensão do antibiótico, há um fenómeno de resiliência, ou seja, a microbiota tenta voltar ao seu estado inicial de diversidade. Porém, está bem demonstrado, que isto não acontece, a microbiota nunca volta ao seu estado inicial e passados anos da utilização de um antibiótico, a flora intestinal de um individuo mantem-se diferente da do individuo que nunca tomou antibióticos, com redução de estirpes como Firmicutes e Bacteroidetes, e aumento de estirpes mais nocivas, prejudiciais à saúde como as Proteobactérias.  Este desequilíbrio pode, pois, causar queixas pois todas aquelas funções desempenhadas por uma microbiota saudável ficam comprometidas. Estes efeitos são tanto mais prejudiciais quanto mais precoce for a utilização do antibiótico – antes de um ano de idade, e mais repetida for a sua utilização. Um outro efeito secundário relacionado com a utilização repetida de antibióticos prende-se com os fenómenos de resistência bacteriana que vão crescendo, vão-se amplificando e, em determinado momento temos bactérias no nosso organismo e na comunidade, que são resistentes a inúmeros antibióticos. Este fenómeno é particularmente grave em doente idosos, debilitados, imunossuprimidos. São a grande causa de morte em doentes com internamentos hospitalares múltiplos e prolongados.

 

Não pretendemos com isto criar nenhuma resistência à utilização de antibióticos desde que eles sejam corretamente prescritos – isto é, quando existe uma infeção bacteriana demonstrada ou pelo menos assumida e que necessita de ser combatida. É preciso não esquecer que as infeções bacterianas não tratadas matam! Contudo, o que gostaríamos de reforçar é que a maioria das infeções respiratórias ou gastrintestinais que surgem na comunidade são virais, não são causadas por bactérias, passam espontaneamente em alguns dias e, como tal, não necessitam de antibióticos.

 

Porém se existe uma infeção bacteriana para a qual a prescrição de antibióticos é necessária podemos minorar alguns daqueles efeitos secundários sobre a nossa microbiota através da prescrição de pré, pró ou simbióticos. Probióticos são as bactérias saudáveis que habitam o nosso intestino, pré-bióticos são os alimentos que nutrem estas bactérias e promovem o seu crescimento (Frutoligossacáridos – FOS) e os simbióticos são os produtos que contêm simultaneamente FOS e probióticos. Estes podem ser prescritos durante uma gastrenterite aguda, viral, pois ajudam a combater os vírus causadores de doença. Podem também ser prescritos após um tratamento antibiótico no sentido de combaterem a DISBIOSE que já referimos – ajudam a microbiota a voltar ao seu estado inicial, com controlo da proliferação de algumas espécies que são menos saudáveis como as Proteobactérias e aumento das estirpes mais benéficas – Lactobacillus e Bifidobacterium entre outras.

 

Assim, como mensagem final gostaríamos de transmitir que os antibióticos foram um enorme desenvolvimento na Medicina Moderna, provavelmente a descoberta mais importante do século passado. Contudo, têm efeitos secundários, adversos, que não são desprezíveis sobre a microbiota intestinal, pelo que a sua utilização deve ser restringida a quando são realmente necessários. Finalmente, chamar a atenção para este grande ÓRGÃO que temos dentro de nós, tão importante como o coração, ou pulmões, os rins ou o intestino. Este órgão é a MICROBIOTA que é hoje reconhecida como sendo um órgão escondido dentro de nós e cujo desequilíbrio (DISBIOSE) pode estar na origem de muitas patologias cada vez mais frequentes nas Sociedades Ocidentais (… Sociedades estas onde a utilização dos antibióticos foi banalizada durante as últimas décadas). Doenças como Diabetes, Obesidade, Depressões, Doenças autoimunes, Alergias podem estar relacionadas com uma disbiose intestinal a qual pode estar relacionada com a utilização precoce (antes de um ano de idade), repetida e indevida de antibióticos.

 

Professora Doutora Marília Cravo
Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastreterologia
Diretora do Serviço de Gastrenterologia do Hospital Beatriz Ângelo

 

Publicado in Revista Saúde e Bem-Estar