Saúde Digestiva

Artigos de Opinião

O desafio inclusivo de eliminar a hepatite C: solidariedade e humanismo de uma decisão política

Temos reiteradamente afirmado ao longo dos últimos anos, em diversos fóruns médicos, que ser-se inclusivo tornou-se mais uma expressão da moda, de quase banalização da nobreza do conceito, do que um propósito concreto e objetivo. De facto, ser-se inclusivo é algo muito desafiador: representa um estado mental e comportamental muito exigente, que implica estar apto a pretender derrubar barreiras, de natureza cultural, social, administrativa ou económica. Significa sermos chamados a construir sociedades mais participantes, responsáveis, solidárias e cooperantes. Significa desenvolvermos capacidade empática, o nobre sentimento de respeito, cidadania, tolerância e dignidade. Representa ser capaz de sublimar o Eu para acolher o Outro. E o Eu, que se transcende para integrar o Outro, pode ser o profissional de saúde, a instituição de saúde ou até o próprio… Serviço Nacional de Saúde. O SNS é um instrumento historicamente consensual, de promoção de saúde e bem-estar, de produção de riqueza e de coesão social no nosso País. Mas entre uma visão mercantilista da sua função e uma postura de invulgar dedicação, brio e labor dos seus profissionais, o movimento pendular do SNS tem vindo cada vez mais a perder vigor e fulgor, em virtude do propalado e óbvio subfinanciamento crónico, cada vez mais nitidamente constritivo, anacrónico e castrador, por estar totalmente desajustado às novas exigências e imperativos clínicos, técnicos e sociológicos. Há muito debate e enfoque verbalizado sobre os Cuidados de Saúde Primários, ou sobre os Cuidados Continuados, mas um significativo silêncio ou embotamento cognitivo sobre os Cuidados Hospitalares, onde continuamos a dispor dos maiores expoentes científicos, humanos, assistências e académicos, que podem contribuir decisivamente para dar o golpe de asa tendo em vista a Medicina de excelência, equitativa e solidária que todos procuramos. Não os podemos desperdiçar.

 

Solidariedade é, pois, o conceito unificador da Inclusão. Trata-se de um conceito de grande pujança, cuja omnipresença frequentemente anunciada, tende muitas vezes a vulgarizar e a reduzir a dimensão da sua importância na relação triangular básica que se estabelece entre o Prestador de Cuidados de Saúde, o Doente e a Instituição Prestadora de Cuidados (o verdadeiro palco de ação e de oportunidade humanizada).

 

Ser-se solidário significa ter uma motivação de compromisso, significa compreender a dimensão e o relevo do papel individual numa malha social com que todos somos compelidos a interagir, significa também ser-se acometido de uma matriz de valores que nos remete para o outro, numa lógica de proximidade e beneficência. A solidariedade exprime assim, indubitavelmente, uma visceral natureza de quem pratica Medicina Clínica, de quem a ensina e quem no seu universo, investiga. É o que subjaz ao conceito da Relação Medico-Doente como Património Imaterial da Humanidade da Unesco, que em boa hora a nossa Ordem dos Médicos patrocina.

 

Solidariedade implica mais abrangência e profundidade do que caridade e compaixão, nobres demonstrações de empatia e de preocupação pelo outro. Ela representa, sobretudo, um movimento e uma dinâmica interior, de indivíduos e de instituições, não correspondendo, assim, exclusiva e estaticamente, a uma unilateral predisposição de beatitude, mas antes a uma reciproca e intuitiva assunção de igualdade, a uma antecipação de equidade e de interdependência relacional… Implica, por exemplo, saber reconhecer desde o drama envergonhado do álcool até ao desafiar as convenções e barreiras administrativas para tratar todos os indivíduos com Hepatite C.

 

Nos tempos atuais, em que a discussão da tal relação triangular básica arrisca estar excessivamente focada na dimensão económica desse dialogo tripartido, aumenta a responsabilidade de todos os prestadores de cuidados de saúde para reajustar o fluxo comunicacional, criando sinergias que façam a prevenção de iniciativas exclusivas de quem cuida, que façam a profilaxia de eventuais imposições de quem é cuidado, e que promovam a razoabilidade e humanidade das instituições, de forma a que seja possível equacionar com Solidariedade, todas as consequências afetivas, económicas e culturais das opções que assumimos.

 

As populações que exprimem vulnerabilidade na Saúde sofrem de fatores específicos a que não nos podemos alhear. Esses fatores de vulnerabilidade como a pobreza, o género, a etnia, a migração, exclusão social, estigmatização, obrigam a um combate sem tréguas, e aqui entra o investimento coletivo na educação de qualidade transformando-a em cidadania ativa e empreendedora sempre visível e sensível onde se exerce educação: em casa, na faculdade, no hospital.

 

No entanto, nada substitui adequadamente os muros da indiferença, ou a soberba normativa, ou a ausência de reflexão coletiva, ou ainda as decisões baseadas não na evidência, mas nas tabelas Excel. Nada substitui toda esta tecnocracia se não houver uma visão humanizada, preocupada com os destinos individuais, comprometida com uma perspetiva holística da antropologia e sociologia dos novos tempos. Esse frémito de a todos servir bem sem olhar a quem está nos genes da Medicina.

 

No nosso léxico, selecionar para tratar deverá querer dizer “estar apto a incluir” e não “ter argumentos para excluir”. Não quer dizer estar entrincheirado em posições irredutíveis, insustentáveis e inconsequentes, mas sim proativamente criar oportunidades e pontes de acesso agilizado. A inclusão não pode ser uma miragem ou apenas uma aspiração romântica sem ser um alvo operacional. A inclusão não se decreta – vivencia-se. Por vezes, até esses decretos aparentemente pro-inclusivos, promovem no terreno mais iniquidade e nichos de exclusão. A inclusão tem de ser um sobressalto ético permanente, e que permita juntar decisores políticos, instituições eclesiásticas, realidades hospitalares, universitárias, desportivas, mediáticas, culturais.

 

A Hepatite C é ainda um grande desafio em Portugal. Não está tudo dito sobre Hepatite C. Não está tudo resolvido em relação à Hepatite C. Há muito caminho a percorrer se queremos verdadeiramente contribuir para a sua eliminação. Ela tem constituído uma permanente provocação à nossa capacidade de sermos inclusivos. Desde os momentos em que as novas terapêuticas se revelaram como “tecnologia disruptiva”, até à falsa e perigosa paz que se enraizou (sobretudo entre os decisores políticos) como se estivesse tudo resolvido. Não está. Não sabemos onde estão os 30 a 50 mil infetados no nosso país. Adivinhamos os nichos problemáticos, mas falhamos a identificação e a sua acessibilidade, e, portanto, falhamos o tratamento da outra maioria silenciosa. Ainda não se adotou entre nós a estratégia americana de testar sistematicamente os grupos de risco e os baby boomers (os portugueses com 50 anos ou mais). Porque recusamos ainda admitir, como propostas desafiadoras para a sua implementação, as irónicas e apropriadas traduções lusas do “summer of love”, do “flower power” e da guerra do Vietname pela Primavera de Abril, pela Revolução dos Cravos ou pela Guerra do Ultramar, verdadeiras razões históricas e culturais que contribuíram para a epidemiologia deste problema entre nós? De um decreto ao ato, há uma miríade de potenciais bloqueios que temos de ser capazes de adivinhar e ultrapassar. O envelope financeiro que o estado devia dotar o SNS para tratar, curar e eliminar a hepatite C, no curto prazo de 5 anos, é 10 vezes inferior ao que já costuma dotar, ao longo de muitos anos para tratar a infeção VIH. Afinal, onde está a discriminação?

 

É esta abrangência e este papel catalisador de discussão que os Serviço Clínicos, sobretudo em Hospitais Centrais e Universitários, devem assumir: para serem plataforma de conhecimento, pretexto de encruzilhada de saberes e emoções, para se tornarem eles próprios parceiros vivos e interactuantes nessa absoluta demanda de intervenção cívica. Esse é o espaço que os Serviço Clínicos dentro do SNS devem ocupar pela sua cultura e humanismo, geradores de acréscimo de responsabilidade cívica e exigência ética suplementar. Tratar e curar a Hepatite C é pois uma grande oportunidade, a não perder, de percorrermos um roteiro pela inclusão, onde os médicos, outros profissionais de saúde e as suas instituições possam encontrar mais um desafio sublime que dá razão à sua existência. As decisões políticas que enquadrem este desafio são urgentes e imprescindíveis. A oportunidade de Portugal ser um bom exemplo e continuar a fazer história no mundo não pode ser desperdiçada.

 

Professor Guilherme Macedo
Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

Publicado in Visão