Os tumores do tubo digestivo estão entre os mais prevalentes e incluem esófago, estômago, fígado, pâncreas e vias biliares, cólon e reto. Embora nem todos os casos de cancro possam ser evitados, uma parte significativa do risco pode ser reduzida através de estilos de vida mais saudáveis. Não fumar, moderar ou eliminar o consumo de álcool, manter um peso adequado, praticar atividade física regularmente e adotar uma alimentação equilibrada são medidas importantes para prevenir todos estes tumores.
Mas prevenir não é suficiente. Detetar cedo pode fazer a diferença entre uma doença diagnosticada numa fase potencialmente curável e uma doença já avançada, com maior complexidade terapêutica e maior impacto na vida do doente. É fundamental conhecer os sinais de alerta e não desvalorizar sintomas persistentes, como alterações recentes dos hábitos intestinais, sangue nas fezes, dificuldade em engolir, perda de peso inexplicada, anemia ou dor abdominal persistente. A presença destes sintomas não significa necessariamente cancro, mas justifica uma avaliação médica.
Os programas de rastreio têm igualmente um papel decisivo, permitindo identificar algumas doenças numa fase inicial ou detetar lesões que podem ser tratadas antes de evoluírem para cancro. Tem particular importância o rastreio do cancro do cólon e reto (CCR), que é o cancro mais frequente se considerarmos homens e mulheres em conjunto, e cuja incidência continua a aumentar em Portugal. A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia recomenda o rastreio de CCR por colonoscopia a partir dos 45-50 anos, pois permite remover os pólipos que são as lesões precursoras do CCR em mais de 90% dos casos. Atendendo a que Portugal tem uma incidência elevada de cancro do estômago, recomendamos que, no momento da primeira colonoscopia de rastreio, feita regra geral com sedação/ anestesia, seja igualmente realizada uma endoscopia alta com biopsias. Se for detetada a bactéria Helicobacter pylori, presente em cerca de 60% da população portuguesa, está recomendada a sua erradicação, pois é considerada um carcinogéneo para o cancro do estômago.
Embora o tratamento curativo do cancro fosse, regra geral, a cirurgia, na última década têm surgido terapêuticas não cirúrgicas, inovadoras, que permitem, em alguns casos, curar o cancro, mas manter o órgão com todas as vantagens daí decorrentes. São as chamadas quimioterapias dirigidas ou a imunoterapia, que são utilizadas em tipos específicos de tumores e que hoje conseguimos identificar graças ao grande desenvolvimento de técnicas moleculares. Por outro lado, se forem lesões precoces, que só invadam as camadas superficiais do tubo digestivo (esófago, estômago, colon e reto), as resseções endoscópicas podem ser curativas, novamente preservando o órgão.
O diagnóstico de um cancro representa frequentemente uma mudança abrupta na vida do doente. As consultas, exames e tratamentos passam a fazer parte do quotidiano, acompanhados por alterações físicas, emocionais e sociais.
É, por isso, essencial olhar para o cancro digestivo como uma realidade das sociedades modernas onde estes números não param de aumentar. Para além da mortalidade e da perda de qualidade de vida, existem custos associados aos cuidados de saúde, aos tratamentos prolongados, à incapacidade temporária ou permanente para o trabalho e ao papel de familiares que assumem funções de cuidadores. Investir na prevenção, no rastreio e no diagnóstico precoce não é apenas uma questão de saúde individual: é também uma estratégia de saúde pública e de sustentabilidade social.
O Dia Mundial do Cancro Digestivo é uma oportunidade para transformar informação em ação. É preciso combater o desconhecimento e garantir que a população sabe quando deve procurar ajuda. É igualmente importante assegurar que todos têm acesso atempado a rastreios, diagnóstico, tratamento e cuidados de qualidade, independentemente da sua condição social ou local de residência.
Mais do que assinalar uma data, este dia deve servir para reforçar uma mensagem simples: a prevenção começa antes do diagnóstico e o diagnóstico precoce pode mudar vidas.
Porque por detrás de cada diagnóstico existe uma pessoa. E cuidar do cancro digestivo significa, acima de tudo, cuidar dessa pessoa.
Artigo escrito por Marília Cravo, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
