Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é uma doença prevalente do trato digestivo. Estima-se afetar 10 a 20% da população adulta e apresenta grande impacto na qualidade de vida, sendo um motivo frequente de consulta de gastrenterologia. A DRGE resulta do refluxo anómalo de conteúdo do estômago para o esófago e, por vezes, até à cavidade oral, geralmente ácido, provocando sintomas persistentes e, em alguns casos, lesões nestas estruturas.

Os sintomas típicos associados a esta doença são a pirose (azia) e a regurgitação. A pirose corresponde à sensação de ardor que se inicia na zona do estômago, região superior abdominal, e irradia em direção ao pescoço, mais frequentemente após as refeições. A regurgitação é a passagem espontânea de conteúdo do estômago até à boca, geralmente com sabor ácido ou amargo, não associada a esforço de vómito. Podem surgir manifestações atípicas, como dor torácica de causa não cardíaca, náuseas e vómitos, dificuldade em engolir ou sensação de enfartamento. Além disso, podem estar presentes sintomas extra-esofágicos, que resultam do contacto repetido do conteúdo ácido com a boca ou as vias aéreas superiores, incluindo erosão dentária, gengivite, tosse crónica, rouquidão, laringite recorrente, sensação de corpo estranho faríngeo e até agravamento de doenças já existentes, como a asma.

O diagnóstico da DRGE baseia-se na existência de sintomas típicos e na resposta ao tratamento, habitualmente avaliada num período de oito semanas. Em algumas situações, pode ser necessário recorrer a exames para auxiliar na confirmação ou excluir outros diagnósticos, nomeadamente a endoscopia digestiva alta ou a pHmetria, um exame que avalia a presença de refluxo do conteúdo gástrico para o esófago. A presença de complicações provocadas pelo refluxo também constitui um dado relevante, sendo que a endoscopia digestiva alta tem um papel importante na deteção das mesmas. A endoscopia deve ser realizada na presença de fatores de risco para complicações, como sintomas persistentes apesar da medicação instituída, ou sinais ou sintomas de alarme, tais como, a perda de peso não intencional, dificuldade em engolir, vómitos ou suspeita de hemorragia.

O pilar do tratamento da DRGE combina medidas de estilo de vida e terapêutica farmacológica. A mudança de hábitos é fundamental para o controlo da doença, o que pode incluir a perda de peso, a evicção de refeições copiosas ou tardias (nas 2 a 3 horas antes de deitar), a elevação da cabeceira da cama e a cessação tabágica e alcoólica. Deve ainda ser evitado o consumo de alimentos que agravam os sintomas, como café, chocolate, bebidas gaseificadas, comidas picantes ou com elevado teor de gordura. Estas medidas podem não ser suficientes, pelo que se utiliza a terapêutica farmacológica para reduzir a secreção ácida do estômago. Os inibidores da bomba de protões (IBP) são a classe de fármacos mais utilizada, que atuam na redução dos sintomas e na cicatrização de lesões da mucosa (parede) esofágica, revelando-se muito eficazes. Habitualmente, são tomados cerca de 30 minutos antes da primeira refeição do dia. Em alguns casos, pode ser possível suspender a medicação, mas frequentemente os sintomas reaparecem, sendo necessário o seu uso prolongado.

Apesar de tratamento adequado, alguns doentes podem manter os sintomas, o que se designa por DRGE refratária. Deve ser confirmada a adesão e a forma correta de administração do tratamento, ou reavaliar o diagnóstico. Numa baixa percentagem de casos, em que o tratamento está otimizado e foram excluídas outras causas para os sintomas, poderá ser necessário recorrer a tratamento cirúrgico ou endoscópico para controlo da doença, reforçando a barreira muscular que impede o refluxo para esófago. No entanto, noutros casos verifica-se um incumprimento terapêutico, devendo ser realçada a importância de uma correta dosagem e horário das tomas do medicamento. O não controlo da DRGE pode trazer consequências potencialmente graves a longo prazo. Além do impacto negativo na qualidade de vida, a persistência de refluxo pode provocar lesões no esófago como erosões, estenoses, úlceras ou hemorragia. O esófago de Barrett, uma alteração do esófago provocada por esta agressão crónica, constitui uma lesão pré-maligna e aumenta o risco de cancro do esófago. Na presença de complicações é necessário o tratamento prolongado para prevenir a progressão destas lesões, aliado a uma vigilância regular clínica e endoscópica.

A DRGE é uma doença frequente que requer tratamento e vigilância. O seu diagnóstico baseia-se principalmente na avaliação clínica, contudo deve ter-se em atenção a possibilidade de manifestações atípicas ou sintomas extra-esofágicos. O reconhecimento precoce da doença é essencial para um tratamento eficaz e, por conseguinte, para a prevenção de complicações, privilegiando-se a combinação de medidas de estilo de vida e tratamento médico por via oral.

Artigo escrito por Inês Marques, Serviço de Gastrenterologia, Hospital da Senhora da Oliveira – Guimarães, ULS Alto Ave

Este artigo faz parte da revista Saúde e Bem-Estar | Conselhos Médicos, inteiramente dedicada às doenças do foro da Gastrenterologia, desenvolvida com o contributo dos especialistas da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG).

 

fevereiro 2026