O diagnóstico precoce, a literacia em saúde e uma abordagem multidisciplinar centrada no doente são decisivos para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida.
As Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), fundamentalmente do tipo doença de Crohn ou colite ulcerosa, são doenças inflamatórias crónicas do trato gastrointestinal, imunomediadas, potencialmente progressivas e incapacitantes. Apesar dos avanços registados nas últimas décadas, continuam a ser pouco reconhecidas pela população em geral e associadas a um importante estigma social, fatores que contribuem para dificultar e atrasar o diagnóstico.
Em Portugal, estima-se que as DII afetem cerca de 24 a 25 mil pessoas, refletindo uma prevalência crescente nas últimas décadas.
Os sintomas mais comuns incluem diarreia crónica, dor abdominal, fadiga, perda de peso, urgência defecatória e perda de sangue nas fezes. Em muitos casos, existem também manifestações extraintestinais, por exemplo articulares, cutâneas ou oculares, que podem até anteceder os sintomas intestinais. Isto traduz bem a complexidade destas patologias e a necessidade de um acompanhamento multidisciplinar especializado.
As DII podem surgir em qualquer idade, mas são mais frequentemente diagnosticadas em adolescentes e adultos jovens, numa fase de construção do projeto de vida, de formação académica e de afirmação profissional. A vivência da doença é frequentemente acompanhada por constrangimentos na vida pessoal e social, absentismo laboral ou escolar e um forte impacto na saúde mental e na perceção da qualidade de vida. O receio de uma nova crise, a preocupação com o impacto da doença na vida pessoal e social, a necessidade de monitorização regular, são alguns dos fatores que contribuem para uma carga diária que nem sempre é visível, mas que pode ser profundamente limitadora.
É, por isso, fundamental reforçar a literacia em saúde nesta área. O reconhecimento precoce dos sinais e sintomas, a referenciação atempada e o acesso adequado a cuidados de saúde especializados são determinantes para o diagnóstico precoce, o controlo adequado da inflamação, a prevenção de complicações e a melhoria do prognóstico.
Atualmente, dispomos de opções terapêuticas cada vez mais diferenciadas, incluindo terapêutica biológica e pequenas moléculas, que permitem um controlo mais eficaz da inflamação. O tratamento deve procurar não apenas aliviar os sintomas, mas também induzir e manter a remissão da doença, reduzir a necessidade de hospitalizações e de cirurgia e prevenir complicações. O sucesso do tratamento não depende apenas do diagnóstico atempado e dos medicamentos disponíveis. Uma abordagem multidisciplinar, estruturada e centrada no doente é fundamental para garantirmos os melhores resultados. O seguimento por gastrenterologistas com diferenciação nesta área deve articular-se com uma equipa de enfermagem especializada, nutrição, psicologia, farmacêuticos e, sempre que necessário, cirurgia e outras especialidades médicas. Só assim é possível responder de forma integrada às necessidades clínicas, nutricionais, emocionais e sociais de quem vive com DII.
Sensibilizar a população para as Doenças Inflamatórias Intestinais, combater o estigma que ainda lhes está associado e promover a valorização dos sintomas constituem passos decisivos para favorecer o diagnóstico precoce, permitir uma intervenção terapêutica atempada e prevenir complicações. Só uma abordagem multidisciplinar, integrada e verdadeiramente centrada no doente poderá dar resposta, de forma adequada, à complexidade e à diversidade de necessidades das pessoas que vivem com DII.
Artigo escrito por Ana Patrícia Andrade, Vogal do Grupo de Estudos Português do Intestino Delgado (GEPID), gastrenterologista na Unidade Local de Saúde São João.
